Pubvet

Pesquisar por

em

E-mail

Senha

Pubvet, V. 2, N. 34, Ed. 45, Art. 337, ISSN 1982-1263, 2008

Alimentos alternativos para ruminantes

Visualizações: 16385

Anexo: Clique aqui para visualizar o artigo

Cheyla Magdala de Souza Linhares1 e João Batista Freire de Souza Junior2

 

1Discente do Curso de Agronomia da UFERSA.

2Discente do Curso de Zootecnia e pertencente ao Núcleo de Estudo e Pesquisa em Biometeorologia e Bem-Estar Animal da UFERSA.

                                                                      

 

Resumo

 

Tendo em vista o alto custo de produção existente na busca de uma boa alimentação para os ruminantes, têm-se pensado em alternativas mais econômicas e bastante viáveis para minimizar essa situação. Sendo assim, os alimentos alternativos representam uma fonte nutricional bastante favorável à alimentação desses animais, diminuindo significativamente os custos e promovendo ainda uma maior produção de carnes, leite e couro. Há a necessidade de mais estudos para saber quais os melhores alimentos alternativos a serem utilizados nas diferentes espécies e em diferentes estados fisiológicos dos animais, com o intuito de fornecer energia, proteína, vitaminas e minerais necessários para o seu desenvolvimento ponderal e produtivo.

 

Alternative foods for ruminant

 

Abstract

 

Tends in view the high cost of existent production in the search of a good feeding for the ruminant ones, they have been thinking her in more economical and quite viable alternatives to minimize that situation. Being like this, the alternative victuals represent a source quite favorable nutrition to the feeding of those animals, reducing the costs significantly and still promoting a larger production of meats, milk and leather. There is the need of more studies to know which the best alternative victuals be used her/it in the different species and in different physiologic states of the animals, with the intention of supplying energy, protein, vitamins and you mine necessary for your development ponderal and productive.

 

Introdução

 

        A utilização de fontes alimentares alternativas na dieta de ruminantes, como aproveitamento de subprodutos do processamento de frutas, tem-se mostrado uma ótima alternativa nutritiva para estes animais, suprindo assim suas necessidades nas épocas de seca, e conseqüentemente os produtores na alimentação de seus rebanhos, pois se sabe que o custo da alimentação na atividade pecuária é bastante elevado. A disponibilidade e a qualidade desses materiais são bastante variáveis em função do nível de industrialização e de acordo com as características de cada região. Produzir alimentos indispensáveis aos animais têm-se tornado um desafio constante a ser enfrentado por aqueles que residem nos limites do semi-árido. Portanto, o objetivo dessa revisão é mostrar algumas fontes alimentares alternativas que possam promover dietas balanceadas aos animais e obter economia aos sistemas de produção.

 

Cana-de-açúcar: opção acessível

 

A cana-de-açúcar apresenta uma série de características desejáveis: grande produção por unidade de área (20 a 30 t MS/ha) e baixo custo por unidade de matéria seca produzida, período de colheita e disponibilidade constante ao longo do ano, manejo simples e manutenção do valor nutritivo por até seis meses depois da maturação (Silva, 1995). A cana é uma planta de características como: alto potencial de produção, bom perfilhamento, resistência a pragas e doenças, resistência ao florescimento e alto teor de sacarose.

 

Do ponto de vista nutricional, apresenta duas limitações principais: baixos teores de minerais, principalmente fósforo (0,07%) e baixo teor de nitrogênio (1,5% a 5%) (Silva, 1995). A fim de melhorar a qualidade e valor nutritivo da cana, sem, com isso, acarretar maiores custos, faz-se uso de uréia ou sulfato de amônio. Normalmente, a mistura uréia: sulfato de amônio (9:1) é utilizada na proporção de 0,5% a 1% em relação ao peso da cana picada.

 

No ano de 2001, o Nordeste produziu 60,25 milhões de toneladas de cana-de-açúcar (Anuário Estatístico do Brasil, 2003). Esta produção foi utilizada na fabricação de açúcar, álcool, aguardente, rapadura entre outros, produzindo vários subprodutos com potencial de uso na alimentação animal. Da lavoura, vem a ponta de cana, da indústria açucareira: o bagaço, a torta de filtro e o melaço e da indústria alcoólica (Santana & Sousa, 1984). Destes, o bagaço-de-cana é o mais disponível.

 

O bagaço é o produto resultante do esmagamento da cana-de-açúcar na extração do caldo. Anualmente, são gerados mais de 75 milhões de toneladas no país inteiro. Devido ao seu alto teor de fibra (45%) e baixa proteína (2,5%), sua digestibilidade é baixa. Por outro lado.

 

A utilização do bagaço de cana-de-açúcar na alimentação de ruminantes pode ser feita em sua forma in natura. Todavia seu alto teor de fibra, baixo teor de proteína, associado a outros fatores como baixa densidade, restringem seu uso na dieta desses animais. Segundo Teixeira (1992), o bagaço de cana in natura apresenta baixo valor nutritivo, digestibilidade menor que 35% e uma densidade que não ultrapassa 150 kg/m3, o que limita drasticamente o consumo, limitando sua utilização para níveis inferiores a 30% da ração total.

 

Tabela1. Composição do bagaço de Cana in natura (BIN)

% na MS

Alimento            MS             PB             FDN             FDA             DIGMS1             EE2          CHOT3

BIN                    58,06         1,6              72,76           57,96              44,66              2,59            92,25

1:Digestibilidade da matéria seca. 2:Extrato etéreo. 3:Carboidratos totais

Fonte: Adaptado de Capelle e Valadares Filho (1999).

 

 

         Para que a cana possa ser fornecida como alimentação aos animais, com melhor aproveitamento, é necessário submetê-la ao processo de hidrólise, que consiste em alterar a composição química da matéria, o que favorece a digestão e o consumo. (CHAGAS)

Os tratamentos químicos e físicos utilizados para melhorar a qualidade do bagaço de cana-de-açúcar, visam eliminar ou diminuir os efeitos prejudiciais da lignina sobre a degradação de compostos celulósicos pelos microrganismos do rúmen, promovendo a ruptura das complexas ligações químicas daquele componente com a celulose e hemicelulose, disponibilizando o material, teoricamente, para adesão da população microbiana e ataque enzimático fibrolítica (VAN SOEST, 1994).

 

        A amonização promove o aumento nos teores de nitrogênio não-protéico e atuando na fração fibrosa do alimento, causando solubilização de parte da hemicelulose, aumentando, assim, a digestibilidade e o consumo de volumosos de baixa qualidade (GARCIA, 1992). A amonização tem apresentado resultados promissores, pois promove, entre outros efeitos, redução no teor de fibra do material (BUETTNER et al., 1982), tornando-o mais digestível pelas bactérias do rúmen (SAENGER et al. 1983).

 

        Uma alternativa interessante é a uréia, por ser considerada produto de alta disponibilidade, menos perigosa à intoxicação humana e, muitas vezes, menos onerosa, tornando-se, portanto, viável como fonte de amônia. É um sólido cristalino produzido tecnicamente a partir da amônia e do dióxido de carbono, contém em média 45% de nitrogênio e aproximadamente 280% de equivalente protéico e apresenta a propriedade de se dissolver facilmente em água formando na presença de urease a amônia. O tratamento químico com uréia é uma das melhores formas factíveis para melhorar o valor nutritivo de materiais fibrosos. (SARMENTO et al., 1999).

 

        Segundo Burgi (1995), o tratamento com vapor sob pressão é o que apresenta resultado mais efetivo em termos de aumento do valor nutritivo. Este tratamento é realizado no recinto da própria indústria devido à disponibilidade do vapor a menor custo. As indústrias o têm preferido e adotado em larga escala e o resíduo assim tratado é chamado de bagaço de cana auto-hidrolisado (BAH).

 

        Então, o excedente do bagaço de cana-de-açúcar pode ser utilizado pelos ruminantes desde que bem tratados. Dos tratamentos que são utilizados, o que mais apresenta resultados efetivos com relação ao valor nutritivo é o físico, o qual também é economicamente viável. A utilização do (BAH) revela um enorme potencial de utilização desse subproduto na alimentação de ruminantes, além de ser um destino sustentável ao resíduo.

 

Subprodutos da agroindústria: aproveitamento de resíduos

 

O uso da irrigação tem proporcionado o desenvolvimento da fruticultura em diversas áreas da Região Nordeste nos últimos anos, produzindo desde a fruta de mesa até industrializados como: polpa, sucos, doces, entre outros (Vasconcelos, 2002). Em todos os estados dessa região, há produção de algum resíduo agroindustrial com potencial para uso como alimento para os animais. Na Bahia e em Sergipe, destaca-se a produção de resíduo da cultura de citrus, no Maranhão, a casca do arroz, no Ceará, o bagaço de caju e no Rio Grande do Norte, o aproveitamento dos resíduos da fruticultura irrigada (melão, principalmente). E, desta maneira, aproveitam-se as potencialidades do local, objetivando fornecer alimento e nutrientes para os animais durante todo o ano.

 

O processo produtivo, a depender do tipo de fruta, pode render subproduto de até 70%, constituindo-se em interessante opção para uso na alimentação animal, principalmente em sistemas de confinamento durante a época seca (Vasconcelos, 2002). Isto porque o aproveitamento dos subprodutos, provenientes da indústria, assume papel de significativo valor econômico, face ao volume dos resíduos e sua disponibilidade (Marques Neto & Ferreira, 1984).

 

Outro importante fator relacionado ao uso dos subprodutos é o valor nutritivo. Estes podem ser consumidos na sua forma in natura, bem como desidratados na forma de feno e, também, sob a forma de silagem. Na inclusão de subprodutos na dieta dos rebanhos, deve-se atentar para a composição química e balanço dos nutrientes. Por exemplo, o feno do resíduo de Abacaxi possui teor adequado de cálcio, mas é pobre em fósforo. Este desbalanço precisa ser ajustado para melhorar o aproveitamento desse resíduo na alimentação animal. Um fator muito importante e determinante para o uso de subprodutos na alimentação animal é determinar os níveis de adição dos mesmos às rações. A polpa cítrica pode ser adicionada em até 30% na silagem para caprinos e ovinos. O resíduo da indústria de suco de goiaba, pode ser adicionado em até 15% também na silagem.

 

O caju é alimento que não deve ser consumido puro em nenhuma das opções de utilização. Embora apresente baixo teor de tanino (0,43%), é deficiente em cálcio (0,059%), fósforo (0,037%) e cobre (0,87 ppm) e apresenta baixos teores de cobalto. Para bovinos, têm-se usado quantidades superiores a 50%, obtendo-se rações concentradas com teor protéico da ordem de 18%, com custo total variando de R$ 0,20 a R$ 0,22/kg. Vale a ressalva de que, se o produtor estiver em região de alta disponibilidade e fizer uso de programas de ração com mínimo custo, os custos de produção certamente irão declinar.

 

A produção do suco de caju, mediante prensagem dos pedúnculos, gera como subproduto o bagaço, normalmente descartado ou utilizado para elaboração de ração animal. (RODRIGUEZ-AMAYA, 1984). O farelo de castanha de caju possui um valor nutricional bastante satisfatório, e pode ser incluído também nas dietas dos ruminantes. NEIVA et al.,(2002) relata valores para este subproduto de 91,0% MS; 22,1% PB; 35,8% EE; 18,76% FDN e 6,9% de Cinza.

 

A casca desidratada de maracujá em dietas para ruminantes, especialmente animais leiteiros, deve ser incluída até um nível de 22% na composição de rações. Outra forma de uso do maracujá é a silagem. Siqueira et al. (1998) avaliaram o uso da silagem de maracujá sobre o desempenho de bovinos em confinamento. O ganho médio diário de 1,4 kg/animal x dia e o consumo de 2% do peso vivo indicaram que o resíduo do maracujá ensilado, representa boa fonte de nutrientes para ruminantes.

 

O beneficiamento do maracujá produz uma quantidade de resíduos que corresponde, aproximadamente, de 65 a 70% do total da fruta (Neiva Jr., 2007). A sua composição química-bromatológica sofre variações de acordo com as variedades nos seguintes parâmetros: (11,21 a 17,57% para MS); (7,53 a 0,82%para PB); (37,47 a 44,16% para FDN); (31,11 a 37,73%para FDA); (0,28 a 0,35% para Ca); (0,08 a 0,13% para P). Dependendo desses níveis o resíduo de maracujá pode ser utilizado como uma boa fonte de nutrientes para ruminantes (Vieira et al., 1999).

 

Maniçoba: alternativa para o período de escassez de alimento

 

A maniçoba (Manihot sp.) é uma planta nativa da caatinga que possui grande tolerância à seca. Assim como a mandioca, possui um sistema de raízes tuberculosas, bastante desenvolvido onde acumula suas reservas. As maniçobas são espécies nativas da família Euphorbiaceae, bastante difundidas no Nordeste, aparecendo também nas regiões Centro Oeste, até o Mato Grosso do Sul. Crescem em áreas abertas e desenvolvem-se na maioria dos solos, tanto calcários e bem drenados, como também naqueles pouco profundos e pedregosos das elevações e das chapadas (Soares, 1995).

 

Tendo em vista diversas características apresentadas pela maniçoba, e sendo esta considerada uma forrageira de boa qualidade, têm-se intensificado seu cultivo como parte dos sistemas de produção animal, principalmente na região semi-àrida brasileira.

 

Estudos realizados na Embrapa Semi-árido demonstram que a maniçoba pode ser considerada recurso forrageiro de boa qualidade, podendo ser cultivada para esta finalidade. Esse cultivo possui alta palatabilidade, 21% de proteína bruta, 8% de estrato etéreo, 7% de cinzas, carboidratos totais perto de 65% e digestibilidade in vitro de 62%. As plantas de maniçoba são, normalmente, utilizadas como forragem verde pelos animais que pastejam livremente na caatinga. Entretanto, deve haver restrições a seu uso sob esta forma quando em pastejo exclusivo, devido à possibilidade de provocar intoxicação (Soares, 1995).

 

A maniçoba, como as demais plantas do gênero Manihot, apresenta em sua composição quantidades variáveis de glicosídeos cianogênicos (linamarinae lotaustralina), que ao hidrolisarem-se mediante a ação da enzima linamarase, dão origem ao ácido cianídrico (HCN) (Soares, 1995) que é tóxico e pode levar os animais à morte, dependendo da quantidade consumida.

 

O ácido cianídrico, entretanto, volatiliza-se facilmente. Tewe (1991) e Ravindran (1991) salientam que quando a planta é triturada, espalhada e revirada, e submetida à murchamento ou secagem ao sol reduz o nível de HCN. Nestas condições, o material desidratado pode ser utilizado na alimentação animal (Soares, 1995). Araújo & Cavalcanti (2002) citam que a planta verde apresenta teor médio de HCN próximo a 1.000 mg/ Kg de matéria seca e quando fenada este valor cai para menos de 300 mg/Kg.

 

O processo fermentativo da ensilagem também reduz a concentração de HNC (Tewe, 1991; e Ravindran, 1991). Preston et al. (1998) observaram que a concentração de HCN em folhas de mandioca (M. esculenta Crantz) reduziu de 336 para 96 mg/ kg MS da primeira para a oitava semana de ensilagem.

 

A fenação após trituração é o meio mais recomendado para o seu uso. A suplementação usando o feno de maniçoba elevou o desempenho de animais que eram alimentados apenas com feno de capim-búffel, durante a fase de crescimento (Salviano & Nunes, 1991).

 

Em virtude de a maniçoba apresentar mecanismos que garantam produção de maneira eficiente na caatinga, ela possui um grande potencial de exploração no semi-árido do Nordeste e apresenta compostos que se assemelham com plantas que são tradicionalmente utilizadas na nutrição de ruminantes. E com relação ao seu consumo, deve ser utilizada na forma de fenação ou ensilagem.

 

Palma Forrageira: riqueza na Caatinga

 

As secas e as incertezas climáticas recorrentes na região semi-árida do Nordeste do Brasil constituem os fatores mais limitantes à produção animal. Além da escassez de forragens o valor nutritivo se apresenta em níveis bastante baixos o que acarreta queda de produtividade e compromete a produção de leite e carne (Lima et al., 2004). Devido às suas características morfofisiológicas, as cactáceas representam fonte de água e alternativa alimentar para as regiões subúmida e semi-árida.

 

As espécies de palma forrageira mais utilizadas na alimentação animal no Nordeste são Opuntia ficus Mill e Nopalea cochenillifera Salm-Dyck (Oliveira, 1996). A palma constitui alimento volumoso suculento de grande importância para os rebanhos, notadamente nos períodos de secas prolongadas, pois, além de fornecer alimento verde, contribui no atendimento de grande parte das necessidades de água dos animais (Lira et al., 1990).

 

A palma é uma cultura de elevado potencial de produção e, para expressar esse potencial necessita de adubação, controle de plantas daninhas e densidade de plantio adequados, podendo a produção de matéria seca variar de 12 a 47 toneladas a cada dois anos (Nascimento et al., 2002).

 

A produtividade média da palma pode ser estimada em torno de 80 toneladas de matéria verde/ha x corte, com valores superiores a 200 t/ha x corte quando do uso de adubações pesadas. O uso do esterco deve ser feito a cada dois anos, na dose de cerca de 2 t/ha, enquanto que, em termos de adubação mineral, é recomendada a fórmula 90-60 kg/ha de N-P O (Albuquerque, 2000).

 

A composição química da palma forrageira é variável com a espécie, idade dos artículos e época do ano e independente do gênero ela apresenta baixos teores de matéria seca (11,69 ± 2,56%), proteína bruta (4,81 ± 1,16%), fibra em detergente neutro (26,79 ±5,07%), fibra em detergente ácido (18,85 ± 3,17%) e teores consideráveis de matéria mineral (12,04 ± 4,7%) (FERREIRA et al., 2006).

 

 A palma apresenta baixa proteína digestível e valor equivalente à silagem de milho em extratos não nitrogenados, além de elevado índice de digestibilidade da matéria seca (75%). Um fator limitante para a nutrição dos animais com uso da palma é a baixa quantidade de matéria seca consumida, visto que esse cultivo apresenta alta quantidade de água (90%).

 

A palma não pode ser fornecida aos animais exclusivamente, pois apresenta limitações quanto ao valor protéico e de fibra, não conseguindo assim atender as necessidades nutricionais do rebanho. Então, torna-se necessário o uso de alimentos volumosos e fontes protéicas. Segundo Albuquerque et al. (2002), animais alimentados com quantidades elevadas de palma, comumente, apresentam distúrbios digestivos (diarréia), o que, provavelmente, está associado à baixa quantidade de fibra dessa forrageira. Daí a importância de complementá-la com volumosos ricos em fibra, a exemplo de silagens, fenos e capins secos.

 

A palma forrageira apresenta baixo conteúdo de matéria seca, quando comparada à maioria das forrageiras. Este aspecto compromete o atendimento das necessidades de matéria seca dos animais que recebem exclusivamente palma e, provavelmente, a elevada umidade limita o consumo pelo controle físico, por meio do enchimento do rúmen. Portanto, vale ressaltar que a elevada umidade observada na palma forrageira, independente da cultivar, é uma característica importante, tratando-se de região semi-árida, pois atende grande parte da necessidade de água dos animais, principalmente no período seco do ano (Santos et al., 2001).

 

Logo, tendo em vista essa situação climática presente nessa região, a palma apresenta-se como uma alternativa eficaz para minimizar os prejuízos ocasionados pela precariedade das chuvas. É uma forrageira muito eficiente utilizada na nutrição dos animais, a qual é bastante rica em carboidratos, constituindo assim a principal fonte de energia para os ruminantes. Entretanto, deve-se ressaltar que a palma necessita de se associar com outros alimentos de baixo custo para realmente ser considerado um alimento viável.

 

Mandioca: aproveitamento total da planta

 

Entre os cultivos produtores de alimentos energéticos, com tolerância às condições de semi-aridez, destaca-se a mandioca, que é tradicionalmente cultivada nas áreas com solos de textura leve e boa profundidade. No Nordeste, onde está concentrada 50% da produção do país, o cultivo é utilizado, basicamente, para a produção de farinha. Segundo o Anuário Estatístico do Brasil (2003) 95 t/ha de mandioca foram produzidas no Nordeste Brasileiro em 2001.

 

Na alimentação animal, são utilizados os subprodutos (raspas, cascas, crueiras e etc) da produção da farinha de mesa e raízes frescas, ou picadas e mais recentemente, raízes picadas e secas, conhecidas como raspas ou aparas (EMBRAPA, sd), Além do aproveitamento da parte aérea. CAVALCANTI (2002) afirma que as raízes da mandioca possuem valor energético semelhante ao milho. MARQUES et al.(2000) vê a mandioca e seus resíduos como fontes alternativas de energia, uma vez que os grãos são largamente utilizados na alimentação humana e de animais monogástricos.

 

Raspas de mandioca são raízes picadas em máquinas simples e secadas ao sol, preferencialmente em terrenos cimentados. É alimento rico em energia e pobre em proteína. Por essa razão deve ser fornecido aos animais junto com alimentos ricos em proteína como o feno de leguminosas (leucena e guandu), farelos (soja, algodão) ou com substâncias nitrogenadas como a uréia de uso exclusivo para ruminantes (Cavalcanti, 1994).

 

A viabilidade técnica da utilização da raspa de mandioca em substituição parcial a cereais na alimentação animal é bem aceita e seu uso pela Comunidade Econômica Européia mostra que a referida substituição é também econômica para as condições locais. A economicidade do uso da raspa de mandioca depende da relação de preço entre a raspa e o cereal mais utilizado como ração, que é o milho. O valor de mercado da raspa de boa qualidade é 80% do valor do milho e 85% do valor do sorgo. Portanto, seu uso é recomendado quando seu preço de aquisição ou seu custo de produção for inferior a 80% do valor do milho.

 

Uma forma de melhorar o valor nutritivo da raspa seria através da adição de uréia. O uso mais tradicional da uréia é realmente em confinamento, na mistura com melaço, porém, tal produto é de disponibilidade e preço inacessíveis em regiões não produtoras, como o Nordeste. A raspa de mandioca é tão eficiente na utilização da uréia pelos ruminantes quanto o melaço (Cavalcanti & Guimarães Filho, 1997).

 

A parte aérea da mandioca corresponde a toda porção da planta acima do solo, apesar de alguns autores considerarem como aproveitável para alimentação animal ou humana, apenas o terço superior, mais enfolhado e, conseqüentemente, mais rico do ponto de vista nutricional (Carvalho & Kato, 1987). Além da alta produtividade, a parte aérea da mandioca, bem como suas folhas, apresentam elevados teores protéicos e com teores de fibra inferiores aos de várias forrageiras tropicais.

 

A raiz da mandioca, sendo um produto basicamente energético e de baixo custo, tem sido utilizada como o principal ingrediente energético do concentrado em lugar do milho, conforme vários estudos (RAMOS et al., 2000). Outro resíduo da mandioca que merece destaque é o chamado bagaço da mandioca que é um subproduto da fabricação do polvilho, podendo conter até 60% de amido, sendo assim, uma fonte de carboidratos de rápida fermentação (BUTRIAGO, 1990). De acordo com ZEOULA et al. (2002), a atividade dos microrganismos ruminais dá aos ruminantes a capacidade de utilizarem carboidratos estruturais (amido, celulose, hemicelulose e outras) como fonte de energia e nitrogênio não-protéico como fonte protéica.

 

Portanto, os resíduos de mandioca podem ser utilizados como substitutos dos alimentos energéticos tradicionalmente utilizados na alimentação de ruminantes com desempenho similar e redução nos custos de produção. Presente em diversas regiões do país, estes resíduos representam uma alternativa biológica e economicamente viável.

 

Considerações Finais

 

Com base nesta revisão, pôde-se concluir que a utilização destas formas alternativas de alimentos na alimentação dos ruminantes é viável economicamente, visto que a alimentação ocupa de 70% a 80% dos custos de produção. Portanto, há a necessidade de mais estudos para saber quais os melhores alimentos alternativos a serem utilizados nas diferentes espécies e em diferentes estados fisiológicos dos animais, com o intuito de fornecer energia, proteína, vitaminas e minerais necessários para o seu desenvolvimento ponderal e produtivo.

 

Referências Bibliográficas

 

ALBUQUERQUE, S. S. C.i de; LIRA, M. de A., SANTOS, M. V. F. dos; DUBEUX JÚNIOR, J. C. B.; MELO, J. N. de; FARIAS, I.. Utilização de três fontes de nitrogênio associadas à palma forrageira (Opuntia fícus-indica, Mill) cv. gigante na suplementação de vacas leiteiras mantidas em pasto diferido. Revista Brasileira de Zootecnia, v.31, n.3, p.1315-1324, 2002.

 

ARAÚJO, G.G.L.; CAVALCANTI, J. Potencial de utilização da maniçoba. In: SIMPÓSIO PARAIBANO DE ZOOTECNIA, 3, 2002, Areia-PB, Anais... Areia, 2002. CDROM.

 

BUETTNER, M.R., LECHTENBERG, V.L., HENDRIX, K.S. et al. Composition and digestion of ammoniated tall fescue (Festuca arundinacea Schreb.) hay. J. Anim. Sci., 1982, 54(1):173-178.

 

BURGI, R. Utilização de resíduos culturais e de beneficiamento de na alimentação de bovinos. Anais do 6º simpósio sobre nutrição de bovinos da FEALQ, 1995. Piracicaba-SP, p. 153 – 169.

 

BUTRIAGO, J. A. A. Layuca en la alimentacion animal. Cali:Centro Internacional de Agricultura Tropical. 1990. 446p.

 

CAPELLE, E.R.; VALADARES FILHO, S.C.; Tabelas de composição de alimentos para bovinos. Departamento de Zootecnia da UFV (Tese de Doutorado). 456p. 1999.

 

CAVALCANTI, J. 2002. Perspectivas da mandioca na região semi-árida do Nordeste.

 

CHAGAS, G. Cana hidrolisada garante alimentação bovina no inverno. Jornal UNESP, Jaboticabal, v. 19, n. 203. Disponível em:< http://www.unesp.br/aci/jornal/203/cana.php> . Acesso em: 17 maio 2006.

 

EMBRAPA. Mandioca no Semi-Árido. Artigo Técnico. Disponível em: . Acesso em 27 agosto 2007.

 

FERREIRA, C. A.; FERREIRA, R. L. C.; SANTOS, D. C.; et al. Utilização de técnicas multivariadas na avaliação da divergência genética entre clones de palma forrageira (Opuntia ficus-indica Mill.). Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 32, n. 6, 2003. Disponível em: . Acesso em: 14 Nov 2006.

 

GARCIA, R. Amonização de forragens de baixa qualidade e a utilização na alimentação de ruminantes. In: SIMPÓSIO SOBRE UTILIZAÇÃO DE SUBPRODUTOS AGROINDUSTRIAIS E RESÍDUOS DE COLHEITA NA ALIMENTAÇÃO DE RUMINANTES, 1992, Piracicaba. Anais... Piracicaba: FEALQ, 1992, p.83-97.

 

ISSN 1022-1301. 2007. Asociación Latinoamericana de Producción Animal. Vol 15, número 4: 141-151 etéreo e digestibilidade da silagem de maracujá.Cien. agrot., 31:871-875.

 

MARQUES, J. A., PRADO, I. N., ZEOULA, L. M. et al. 2000. Avaliação da mandioca e seus resíduos industriais em substituição ao milho no desempenho de novilhas confinadas. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2002, Recife. Anais. Recife, 2002. CDROM.

 

NASCIMENTO, A.C.O.; MATTOS, C.W.; DUBEUX Jr. et al. Desempenho da palma forrageira (Opuntia fícus indica Mill) submetida a diferentes níveis de adubação em Sertânea-PE. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTIFICA UFRPE, 11., 2002, Recife. Anais... Recife: Universidade Federal Rural do Pernambuco, 2002. p.4389-390.

 

Neiva, J.M.N., Oliveira Filho, G.S., Lôbo, R.N.B. Utilização do farelo de castanha de caju na terminação de ovinos em confinamento. In: Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2002, Recife. Anais. Recife, 2002. CDROM.

 

Neiva júnior, A.P., Silva Filho, J.C., Eustáquio, I.G., Rocha, G.P., Cappelle, E.R., Couto Filho, C.C.C. 2007. Efeito de diferentes aditivos sobre os teores de proteína bruta, extrato Alimentos alternativos na dieta dos ovinos. Revista Brasileira de Zootecnia. v.27. n.2, p415-435.

 

 

RAMOS, P.R.; PRATES, E.R.; FONTANELLI, R.S. et al. 2000. Uso do bagaço de mandioca em substituição ao milho no concentrado para bovinos em crescimentos. 2. Digestibilidade aparente consumo de nutrientes digestíveis, ganho de peso e conversão alimentar. Revista Brasileira de Zootecnia. v.29. n.1, p300-305.

 

RAVINDRAN, V. Preparation of cassava leaf products and their use as animal feeds. In: EXPERT CONSULTATION ON ROOTS, TUBER, PLANTAINS AND BANANAS IN ANIMAL FEEDING. Cali, Colômbia, 1991. Disponível em:<:Fao_rootsahpp95.htm>

 

RODRIGUEZ-AMAYA, D.B. Carotenóides. In: RODRIGUEZAMAYA, D.B.; BOBBIO, F.O.; BOBBIO, P.A. Curso sobre pigmentos naturais. Campinas: SBCTA, 1984. p. 31-56.

 

Rogério M C P, Borges I, Neiva J N M et al 2003. Consumo e digestibilidade aparente da matéria seca e matéria orgânica de dietas contendo diferentes níveis de subprodutos do processamento de abacaxi (Ananás comosus L.) em ovinos. In: 40a Reunião anual da Sociedade brasileira de Zootecnia, Santa Maria. Anais... Santa Maria: Sociedade Brasileira de Zootecnia.

 

SANTOS, D. C. dos; SANTOS, M. V. F. dos; FARIAS, I.; DIAS, F. M.; LIRA, M. de A.. Desempenho produtivo de vacas 5/8 Holando/Zebu alimentadas com diferentes cultivares de palma forrageira (Opuntia e Nopalea). Revista Brasileira de Zootecnia, v.30, n.1, p.12-17, 2001.

 

SARMENTO, P. et al. Tratamento do Bagaço de Cana-deaçúcar com Uréia. Rev. bras. zootec., v.28, n.6, p.1203- 1208, 1999.

 

SOARES, J.G.G. Cultivo da maniçoba para produção de forragem no semiárido brasileiro. Petrolina, PE: EMBRAPA-CPATSA, 1995, 4p. (EMBRAPACPATSA. Comunicado Técnico, 59).

 

TEIXEIRA, J. C. Processamento do bagaço de cana através da auto hidrólise. In: Utilização de subprodutos agroindustriais e resíduos de colheita na alimentação de ruminantes. Anais... São Carlos. p. 137-148, 1992.

 

TEWE, O.O. Detoxification of cassava products and effects of residual toxins on consuminging animals. In: EXPERT CONSULTATION ON ROOTS, TUBER, PLANTAINS AND BANANAS IN ANIMAL FEEDING. Cali, Colômbia, 1991. Disponível em <:Fao_rootsahpp95.htm>

 

VAN SOEST, P.J. Nutritional ecology of the ruminant. Cornell University Press, Ithaca, N.Y. 1994.

 

Vieira, C.V., Vasquez, H.M., Silva, J.F.C. 1999. Composição químico-bromatológica e degradabilidade in situ da matéria seca, proteína bruta e fibra em detergente neutro da casca do fruto de três variedades de maracujá (Passiflora spp). Revista Brasileira de Zootecnia, 28(5):1148-1158.

 

ZEOULA, L. M.; CALDAS NETO, S. F.; BRANCO, A. F. et al. 2002. Mandioca e resíduos das farinheiras na alimentação de ruminantes: pH, concentração de N-NH3 e eficiência microbiana. Revista Brasileira de Zootecnia. v.31. n.3, p.1582-1593. Suplemento.

Informações Bibliográficas

Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: LINHARES, C.M.S. e SOUZA, J.B.F.Alimentos alternativos para ruminantes. PUBVET, Londrina, V. 2, N. 34, Ed. 45, Art. 337, 2008. Disponível em: http://www.pubvet.com.br/artigos_det.asp?artigo=337. Acesso em: 27/08/2014.

Votar neste artigo Visualizar impressão

Sobre o autor

Cheyla Magdala de Sousa Linhares

Fale com o autor

Cadastre-se em nosso sistema e receba nossas edições semanais. Preencha os campos com seus dados:


Nome:

E-mail:

Profissão:

Desejo cancelar o recebimento

Pubvet

PUBVET, Publicações em Medicina Veterinárias e Zootecnia.

Clickweb Agência Digital